A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM
ou como comprar um apartamento, postar reels todos os dias, conduzir leituras conjuntas, revisar um romance e outras coisas me afastaram da Newsletter
Na última vez em que estive por aqui, falei das maravilhas da escrita analógica em máquinas de escrever, antes tinha dito que estava procurando apartamento para financiar, antes ainda tinha falado sobre meus planos de escrita para um novo romance e a expectativa pela leitura crítica que contratara com um escritor que respeito muito. Pois eu: sigo fascinada pela mecanografia e só não comprei outras máquinas de escrever por falta de dinheiro; achei um apartamento lindo no Instagram, já passamos pelos trâmites do financiamento e agora estamos morando num três quartos com piso de tacos desenhado em padrões de estrela, azulejos originais dos anos 70 e janelões imensos; e os planos de escrita ficaram guardados para que eu focasse no trabalho no romance já escrito e por enquanto ainda sem muita perspectiva de publicação, nas alterações sugeridas pela excelente leitura crítica que recebi, na reescrita de alguns trechos e na construção de algumas novas cenas, em uma reavaliação da protagonista e no corte de excessos. Três coisas que fazia então e continuo fazendo hoje, no mesmo ritmo ainda que haja momentos de cansaço e falta de ânimo, são roteirizar, gravar, editar e postar reels praticamente todos os dias, ler e conduzir debates mensais sobre a obra de Mircea Cărtărescu e treinar força quatro vezes por semana.
Tudo isso e algo mais contribuiu para esse hiato. Faltou disposição para trazer textos para cá.
O algo mais é uma sensação bastante pessoal que tenho nessas bandas: o sentimento de ser uma batata frita molenga perdida entre várias batatinhas crocantes e sequinhas, ou antes, diante de fatias geladas de maçã verde. É desse algo mais que eu vou falar hoje, nesse retorno de quem não foi a lugar algum e com um texto que recuperei entre os arquivos perdidos de antes da mudança de apartamento: a rotina já não está do jeito que eu descrevi então; fiz atualizações e escrevi os parágrafos conclusivos agora, entretanto.
I’M A SOGGY GIRL IN A CRISPY WORLD
Eu queria querer sair de todas as redes sociais. Confesso que me sinto um ser humano pior porque não tenho qualquer intenção de deixar para trás reels e tiktoks, tutoriais e reacts de fofocas de famosos no YouTube e comentários irônicos e engraçados sobre a fase do Grêmio e o cânone de ver novela indiretamente no antigo Twitter e no Bluesky. Queria ser aquela pessoa virtuosa que se blinda de algoritmos e sente a mente límpida, fresca e crocante como uma maçã verde gelada diante de um caderninho artesanal no seu journaling matinal, depois de meditar por meia hora no sol gentil das seis da manhã e antes de correr 12km em VO2 MAX, que só bebe café depois de 90 minutos em pé por causa dos receptores de adenosina, que cozinha todos os dias suas refeições perfeitas e as serve em cerâmicas belíssimas, que treina gentilmente sem suar, que lê todos os livros interessantes e está por dentro de todas as discussões relevantes na literatura em geral, que escreve com paixão e precisão todos os dias, que caga toletes perfumados e sempre mija transparente. Mas, no fundo no fundo, eu simplesmente... não quero (só o mijar transparente sempre, claro.).
Meu cérebro matinal está mais para soggy fries, aquelas batatas fritas molengas que vêm no delivery e que eu adoro justamente pela sua brandura pouco valorizada. Até setembro desse ano, meu dia era meio que assim: cinco da manhã eu era acordada pela minha gata mais nova, fazia um xixi meio amarelo, tomava água me sentindo cheia de culpa pelo tom da urina, me metia na cama de novo e dormia até dez da manhã, o sono entrecortado pelas reuniões do Heitor em dia de trabalho remoto ou miados da gata em dia de presencial. Se quisesse fazer uma meditação nesse horário o sol me daria queimadura e os sons da avenida onde eu morava não atuariam para a calma contemplação, então eu pulava esse momento e passava direto para um tempinho de responder comentários, DMs e mensagens no WhatsApp, para a edição de reels, bebia mais um pouco de água (ainda culpada pelo mijo âmbar), se o livro que eu estivesse lendo fosse MUITO BOM eu leria um pouco. Almoçava marmitas congeladas que preparara com meu marido, sempre a mesma coisa porque a gente tinha achado um ritmo específico de cozinhar comida gostosa e pouco trabalhosa uma vez por semana, enquanto assistia a reacts absurdos na televisão. Passava a tarde meio perdida entre lavar louça e lavar roupa, ler e escrever. Queria escrever, mas resolvia que era melhor ler e deixar para escrever à noite, nessa dúvida eu acabava fazendo pouco além de limpar areia, colocar itens na lista do mercado, beber água com medo de ter muitas câimbras ao treinar, mostrar reels pro Heitor, escrever legendas para os reels e roteiros para próximas gravações, aí já era hora de preparar café, postar o vídeo do dia no Instagram e me vestir para ir treinar na academia. Treinava sempre pesado, saía igual ao Taz de tão vermelha, suada e escabelada, tomava whey e banho, jantava marmita vendo alguma série no streaming, o Heitor jogava videogame e eu ia curtir e responder comentários no vídeo que postei antes de treinar. Seguia para o escritório escrever (à máquina) perto das 22h, num dia bom eu emendava horas e parava lá pela uma da manhã, quando o Heitor ia dormir. Via um capítulo da versão de 1988 de “Vale Tudo” no streaming, pesquisava mais alguma coisa de que precisava para a escrita ficcional de então nos arquivos do jornal “A TRIBUNA”, relia o que escrevera e fazia algumas revisões à caneta, tomava um pouco de água com eterno sentimento de culpa, repunha ração seca para as gatas, conferia se tinha tomado o anticoncepcional e deitava para dormir entre três e quatro da manhã. Nada crispy, tudo soggy, eu sei.
Tanto sei que, depois da mudança de apartamento, eu comecei a trabalhar para alterar essa rotina de forma que a batata molenga ficasse pelo menos um pouquinho menos oleosa. Tenho acordado uma hora e meia mais cedo, reservo as manhãs ao trabalho no meu romance, que voltou da leitura crítica cheio de observações bastante relevantes, e ao consumo de matcha lattes adoçados, não almoço mais marmitas congeladas porque Heitor e eu andamos com preguiça demais para prepará-las então caço promoções nos apps de delivery e peço temakis, ou como um miojo sabor tomate suave e culpa com uma burrata sabor metas de proteína, ou vou a algum restaurante a quilo no horário de almoço. À tarde gravo e edito reels, escrevo legendas e roteiros, lavo louça assistindo a vídeos da Beta Boechat, leio, tento lembrar de beber água suficiente para treinar sem câimbras, posto vídeo no Instagram. Os treinos continuam pesadíssimos, mas agora acontecem em uma academia com luzes alarmantemente laranjas que dão aos meus vídeos um ar de hepatite não tratada, eu continuo tomando whey e banho, janto, interajo com comentários nos posts do dia e assisto a novelas no streaming (terminei “Vale Tudo” 1988 e “Por Amor”, agora tento engrenar a mais antiga “Baila Comigo”). Levo o livro que estiver lendo para cama, leio antes de dormir, apago perto das 3 da manhã. Continuo macia demais, claro, mas menos gordurosa.
Há muitos espaços para melhorar a rotina, é óbvio. Mas a verdade é que querer ser mais plena de atenção e tudo mais sempre me parece uma exigência mais extrínseca a mim mesma.
Sempre que eu entro no Substack, eu sinto com maior intensidade essa discrepância entre a gente crocante e eu, molenga. É abrir o aplicativo e em geral a gente se depara com várias Notas com um teor meio ser humano devastado, ajoelhado na lama, debaixo de chuva, brandindo os punhos crispados contra o deus inclemente e algorítmico que deixou esse santuário da escrita, esse ambiente pristino para os geniais ourives das palavras, esse último refúgio para os sensíveis escribas intolerantes a luzes piscantes, movimentos bruscos e ruídos altos, ser vilipendiado pela entrada de vídeos curtos na plataforma. Essas notas angustiadas acabaram deixando em segundo plano a moda anterior, de reclamar de quem ou celebra assinantes, ou de quem reclama de quem celebra assinantes, ou de quem reclama de quem reclama de quem celebra assinantes.
Não me entendam mal, eu também adorava escrever redação na escola. quero ser lida por pessoas fora do meu círculo íntimo e viabilizar possibilidades de publicação do meu romance por uma editora tradicional, por isso estou aqui. O que acontece é que eu me sinto pouco completa nessa parte do recreio, aí fico meio quieta. Há algo nesse ambiente que bate errado em mim. Os muitos textos sobre a iluminação samádica alcançada depois de deletar redes sociais (e redes sociais parecem consistir apenas em Instagram e TikTok) são parte dessa azia: esse olhar de cima para baixo de quem não se entrega a prazeres frívolos multicoloridos me faz revirar bem os olhos porque me atinge no âmago do prazer bobo de rolar por memes sobre o rendimento do meu time no campeonato brasileiro, de compartilhar a felicidade geral com algum evento midiático, de aprender a limpar os tipos das minhas máquinas de escrever com excruciantes detalhes quanto a que solvente usar e como proteger as partes plásticas.
Esse recorte virtuoso e meio santarrão me cansa porque é justamente isso, um recorte. Parece aquele grupo de amigos mais cultos que você adora, que encontra nos cinemas de arte e nos vernissages, com quem troca umas dicas de livros mega cabeçudos, mas que te cansa porque dá uma exagerada no léxico pomposo e ri pelo nariz quando você fala do domínio na construção de diálogos do Gilberto Braga ou do Aguinaldo Silva. Logo, você sai dali para trocar ideia sobre futebol com os teus amigos que vão ao estádio ver jogos do teu time ou até de outros, depois fala com outra galera que curte assistir a programas de televisão como novelas ou reality shows, ri de piadas bobas, fica sabendo alguma novidade sobre alguma pessoa em comum, conta algo sobre você, fala sobre seu recorde pessoal no agachamento (105kg, 6 repetições + 5 repetições, quebrando muito bem a paralela em todas as reps, ESSE FEITO É MAIS IMPORTANTE DO QUE QUALQUER COISA QUE EU TENHA ESCRITO NESSE ANO DA GLÓRIA DE 2025).
Acho que o que eu quero dizer é que a vida exclusiva aqui é meio parcial demais. Talvez eu já esteja corroída demais pelas luzes piscantes, mas me agrada uma multiplicidade de perspectivas que prescindam do olhar cínico ou irônico da galera que só faz coisa séria. Eu amo estáticos de péssima qualidade e me sinto esquisita entre quem declara que os despreza.
Eu quero rolar menos meus feeds, entendo como esse desespero quieto diante de vídeos curtos nos afeta em níveis ainda nem documentados, e, em grande medida, tenho conseguido domar as horas de doomscrolling ao trabalhar na revisão do romance. Acho importante pisar a areia, olhar com insistência para as pombas que nos encaram de banda, provar todas as frutas cortadas oferecidas no hortifrúti, sentir o cheiro de fossa transbordante de um restaurante misturado com o do desabrochar das damas da noite na rua e ouvir os grunhidos altos do cara que tenta afirmar sua masculinidade a todo custo atochando os aparelhos da academia de anilhas – isso nos traz de volta à vida real, afinal.
Mas nunca esqueço que o Substack é um espaço virtual como o TikTok é, ler um romance romeno é fugir da realidade por meio da ficção como assistir a “Kubanacan” também é, relatos de purificação offline cantados online soam tão artificiais quanto reels em que influenciadoras narram seu dia com um take acordando maquiadas e a meditação leva à mesma sensação de unidade que comemorar um gol do Carlos Vinícius. Somos mais complexos do que a faceta polida que queremos apresentar para o mundo, e aprendi em um reality show de LGBTs de peruca que é muito importante mostrar os pedacinhos quebrados das nossas fachadas, as nossas vulnerabilidades, para que a gente possa se sentir mais completo.
Ninguém caga pedaços maduros de mamão, afinal, e eu jamais gostaria de perder a alegria da dissipação de atenção em nome de um ideal asséptico e inatingível de foco total, imagina o inferno de uma vida sem distrações. Sou molenguíssima – e com bastante orgulho.
Me contento com o xixi claro.
Esse hiato acabou e voltarei a postagens (mais ou menos) semanais.
Nas próximas semanas, trarei informações mais detalhadas sobre o Clube do Livro que estou organizando para o ano que vem, projeto que me empolga mais até do que a volta do Arthur Melo para o Grêmio. Nesse clube, vou propor a leitura de dez romances clássicos e contemporâneos escritos em língua portuguesa por meio dos quais vamos discutir categorias narrativas e aprofundar o entendimento de como a ficção se estrutura, entender melhor o que nos agrada e o que nos desagrada na leitura de quaisquer livros e usar critérios mais sólidos para falar sobre literatura. Colocarei todo o meu conhecimento acadêmico de anos de pesquisa em Letras em uso.



O teu texto bateu forte, Iarima.
Eu só to evitando os jogos do Grêmio pq é muito sofrimento. Fico só nos memes rs
É normal fazer xixi amarelado de manhã.