O JOGADOR
um conto sobre a convocação para a copa do mundo
O jogador abandonou o corpo sobre a maca. De bruços, oferecia os músculos fatigados ao toque vigoroso do massoterapeuta do time, versadíssimo na técnica de amassar para liberar, de besuntar para enrijecer.
“Tem algo que tá incomodando mais?”, perguntou o massoterapeuta, enquanto levantava o tecido das bermudas largas do jogador para expor melhor suas pernas tatuadas.
“O posterior tá pesando demais desde o jogo contra o Inter.”
O jogador relaxou enquanto era tendido pelo massoterapeuta, a atenção estilhaçada entre o Instagram, o Discord e a conversa dos companheiros de clube. Naturalmente falavam sobre ele, o maior craque brasileiro dos últimos... vinte anos? Ele sempre irradiou sucesso e foi desnecessariamente humilde em relação a sua evidente superioridade técnica e tática, talhado para a apoteose, criado para triunfar sobre todos os adversários, ajudar suas equipes a empilhar troféus nas salas de prêmio, estampar todos os jornais esportivos e trazer para o seu país, que sempre o idolatrou, títulos da Copa do Mundo, as pessoas não entendem o quão obcecado eu sou em vencer.
“E aí, ficou sabendo alguma coisa já?”, perguntou o zagueiro reserva.
“Não sei de nada”, respondeu o jogador, os olhos puxados pelo sorriso muito branco. “Vou saber junto com todo mundo.”
“Mas nas outras vezes não vazava nada? Não te avisavam?”
“Nas outras vezes, eu sabia que ia de qualquer jeito.”
Todos riram, acompanhando a gargalhada interdental canhestra do jogador, hehehe, os músculos do posterior de coxa mais enrijecidos, a pressão decidida do massoterapeuta aplicada sobre os nódulos inchados que pesavam as famosas pernas do jogador e afetavam seu andar fora de campo, titubeante, chutinhos de ponta de pé entre cada passo, o tronco malemolente como se gingasse.
Esperavam por um evento quadrienal importante, a atenção de todos ali e de boa parte da população do país dolorosamente voltada para telas de celulares e de televisões, equipes de imprensa preparadas no auditório de um museu para captar a lista de nomes, enunciada em tom monocórdio, dos jogadores que comporiam o plantel da Copa do Mundo, vinte e seis homens e uma sentença: glória eterna ou o fracasso descomunal de uma geração, nenhuma nuance, nenhum perdão. Na sala de recuperação do clube, estava também uma equipe de gravação, luzes e microfones, câmeras montadas em diferentes lugares, maquiadores preparados para ajustar os tons acinzentados da boca do jogador, noitadas de Counter-Strike 2 levadas com baforadas em narguilé e goles de uísque com energético podem, afinal, ocasionar o escurecimento dos lábios e das gengivas, ruim para a saúde bucal, ótimo para as relações com a marca de energéticos patrocinadora do jogador desde a adolescência.
Não é sempre que toda essa antecipação nacional pela Copa do Mundo começa já na escalação, nesse ano a coisa andava bem mais dramática. Nesse ciclo, havia um detalhe abissal, uma dúvida impossível: seria o jogador convocado? Não havia consenso, mas havia um volume descomunal de opiniões e de discussão: seus defensores, muito eloquentes, se esmeravam no histórico de suas conquistas pelos vários clubes onde jogara, estatísticas inchadas de gols, os títulos mais escassos pela seleção nacional, sim, mas históricos na mesma; seus detratores, muito inspirados, focavam na falta de qualidade técnica dos últimos dois anos, no fracasso de sua incursão pelos Emirados Árabes, na sua ausência de convocação por pelo menos metade do ciclo de quatro anos entre copas, na sua falta de resultados relevantes no retorno ao time que o revelara. Em última análise, era um embate tanto de ideias quanto de aspectos verbais, uns focados em hipóteses do futuro do pretérito, outros embasados nas imagens do presente. O que restava indiscutível era a relevância cultural do jogador, de sua marca, de seus cortes de cabelo e de suas tatuagens, blessed e tudo passa.
Mas o que não se podia discutir em outros tempos era a qualidade do seu jogo, seu domínio técnico, sua habilidade e sua ousadia em dribles avassaladores, elásticos, chapéus, sua velocidade e sua precisão, toda a beleza tinha propósito, nada sobrava, bola para ele era caixa. O talento, ouvia desde os tempos de futebol de salão, era nato, um dom divino, cabia a ele nutrir-se de si mesmo, do seu veio inesgotável de habilidade, para corresponder a todas as expectativas de seu povo, até dos muitos que o desprezavam, os fracassados, os jamais cumpridos, os invejosos com os quais jurava não se importar e, ainda assim, respondia em stories e indiretas. Sobretudo, satisfaria os desejos do pai, ex-jogador profissional aniquilado por lesões, empresário muito ocupado em criar e gerenciar o legado do filho.
“O homem chegou”, ganiu o meia-atacante revelação do time, “vai começar.”
O jogador aumentou o volume do celular, os companheiros de equipe amontoados ao redor da maca de massagem, o massoterapeuta diminuindo o ritmo restaurativo de suas mãos.
Antes de receber a palavra, o treinador encarava a alcateia de jornalistas por trás das luzes da transmissão, uma das sobrancelhas em riste, as bochechas caídas sem a força das palavras. Foi apresentado pelo presidente da comissão.
O jogador arqueou um pouco as costas para posicionar melhor os braços e ajustar a visão do telefone. Suava debaixo das luzes da equipe que colhia imagens para mais um documentário, sorria de dentes cerrados quando o treinador iniciou a leitura monótona do rol dos melhores jogadores de um país que um dia se orgulhou em produzir os melhores entre os melhores.
“GOLEIROS.”
A posição antagônica. Mal lembrava de quantos goleiros rendeu com seus chutes fortes, quantos frangos obrigou pais de família a engolir sem batata e nem farofa, e dançou ao vê-los caídos, fez caretas infantis, língua de fora e olhos semicerrados, quando eles enfim levantavam e inventavam impedimentos impossíveis, cobravam sua equipe, compreendiam o perigo inerente à sua ocupação ingrata diante de um craque como ele, o maior de sua geração, o predestinado, o detentor de toda a promessa do estilo moleque de jogar bola. Era bem feito, afinal, deviam encontrar prazer de ser humilhados por alguém assim superior.
“DEFENSORES”
E alguém diferenciado como o jogador não vive apenas para o campo, claro que existe a necessidade de um respiro, de um descanso, de umas farrinhas mesmo, afinal o pai precisa estar on. Então a cobrança dos fracassados, dos haters, foi sempre um despropósito dos maiores, qualquer noitinha em Noronha com os seus parças Carlinhos, vulgo Carlo Batata, o Pedro, vulgo Piu-Piu e o Everton, vulgo Zé Xereca, virava pauta em mesa redonda com ex-jogador gordo, comentarista calvo e narrador senil, será que nosso grande jogador vai encontrar o limite do seu talento? E ele lá, fazendo gol em final de Champions League depois de noitadas com influencers muito cirúrgicas que também faziam um por fora animando festa adulta. Se perguntassem, ele respondia sem qualquer hesitação: o talento deveria eximir o jogador de qualquer tipo de responsabilidade, inclusive processual, se ele porventura se destemperasse depois de uma reclamação indevida, como são todas as reclamações, de algum torcedor frustrado e acabasse, no frigir dos ovos, ofendido o torcedor com base em alguma característica física, ou cuspisse no rosto do torcedor ou, deus nos proteja, pousasse no rosto indignado um soco convicto. O jogador, afinal, tem sentimentos, e as pessoas normais têm que lembrar sempre da existência do campo e da vida, do fato de ele ser fundamentalmente um ente dividido, irremediavelmente rompido, o homem e a marca, o jogador e o menino. Quem faz os gols, não é o mesmo que rebola no show, será tão difícil de compreender algo tão singelo?
“MEIO-CAMPISTAS”
Tudo que o jogador gostaria de fazer é jogar futebol, essa é a grande verdade encoberta pelas polêmicas da mídia. O problema, ignorado por todos os boçais que ficam de fora e se contentam em exigir grandes atuações e rasurar o nome do número 10 nas camisas da seleção, é o seu cuidado com o futuro de sua marca. O jogador e seus muitos contratos de publicidade demandam a imensa exposição de que se ressentem os torcedores, afinal o futebol paga pouco, o que são cento e trinta e oito milhões de euros por sete partidas quando se precisa bancar cada vez mais filhos, cada vez mais parças, cada vez mais jatinhos e helicópteros, cada vez mais fundações com o seu nome? É preciso postar stories, fazer lives, participar de campanhas publicitárias de marcas esportivas, desodorantes e petiscos de segunda linha, viajar para eventos de marcas, tudo isso é trabalho, tudo isso acaba atrapalhando nos treinos, nos jogos e na contagem de gols e assistências, o futebol cada vez mais acessório na vida de superestrela. Mas ninguém quer entender os dilemas do jogador, só quer resultados, só quer ofuscar seu brilho. É uma gente limitada, que se ressente de uma personalidade que incomoda, presença que se nota, felicidade que se esbanja.
“É agora”, o coro de companheiros de time se aproximava mais do jogador, o massoterapeuta já de mãos secas, o silêncio breve sobre os olhos arregalados.
“ATACANTES”
O jogador suava, os músculos das coxas relaxados, a pele úmida arrefecendo sob as lufadas do ventilador, o jogador tremia. Não alcançava acompanhar o nome dos colegas de seleção, ouvia só seus clubes, todos inferiores à sua própria história triunfante de gênio da bola. Real Madrid, esse não podia faltar, ele nunca jogou bem na seleção, mas é um nome incontornável na Europa. Barcelona, outro bom atacante, pior que o jogador, mas ninguém pode ter tanto talento assim. Arsenal, Manchester United, Brentfotd, essa foi uma experiência ausente da vida do jogador, algumas temporadas na Premier League, jogos ricos e rápidos, vigor e músculos, mas era muito trabalho e um clima muito fechado. Zenit, estão deixando entrar gente de zona de guerra, e então a grande dúvida, paralela à presença do jogador, se resolvia: Lyon, a promessa do Lyon estaria na Copa.
Falta só um nome, que nome, só pode ser o do jogador, o clube brasileiro mais famoso no exterior, não pode ser nenhum outro. Esse é um país conhecido pela habilidade, pela alegria, pelo desconcerto, pelos gols impossíveis, pelas comemorações ousadas, e tudo isso ele nasceu para dar. É certo que os últimos dois ou três anos foram mais embaçados, o corpo cansado, a mente menos afiada, o tempo do jogo, antes tão lento para sua percepção agilíssima, estava cada vez mais acelerado, era quase impossível antever os espaços milimétricos entre os corpos dos adversários e as pernas dos companheiros de clube, a via por onde a bola deveria viajar para só repousar aninhada à rede, os urros viscerais de dezenas de milhares de gargantas que podiam até odiá-lo, mas não se furtavam de celebrá-lo quando ele servia.
O tempo pingava, os lábios do treinador se preparavam para o último nome quando o jogador se entregou, inteiro, à dúvida sempre rechaçada. E se não bastar o talento? E se ele realmente tiver perdido tudo o que lhe fez feliz? O jogador tinha passado os últimos anos pensando que, no momento em que se decidisse, em que se dedicasse com afinco, o veio inesgotável de sua habilidade se apresentaria, cintilante e caudaloso, pronto para exalar de seus músculos e de seu suor, visível sobre o poliéster das camisas de jogo e marcado no gramado pelas travas das chuteiras. Mas e se não for bem assim? E se a fonte secou? E se o tempo passou e a marca se consolidou acima dos treinos de força muito desprezados, as parcerias se sobrepuseram à rotina alimentar, o videogame noturno tão prazeroso culpado diante de sua contraparte de noites de sono e recuperação? E se as botas de led não bastaram, a câmara hiperbárica depois dos jogos não surtiu efeitos, a liberação miofascial matinal diária não ajudou, e se todos que o odeiam, todos os que cobram, todos os que fazem cortes com seus piores momentos, quedas, perdas de bola, dribles sofridos, gols impedidos, e se todos os que reclamam, se todos os fracassados, haters, ridículos, e se todos eles estiverem certos?
O treinador da seleção gracejou, o sotaque europeu manchando as nasais da pergunta vocês estão ansiosos, e riu enquanto articulava o nome do último convocado para a Copa do Mundo. O jogador fechou os olhos, tinha os ouvidos doloridos por um zumbido próprio, a pulsação de veias e artérias. Preparado para a glória e para a falha, não conseguiu discernir as sílabas do treinador sob os uivos que estraçalharam o ar úmido do anoitecer.



Amei as referências as tatuagens, pena que a história teve um final triste (?) o tempo dirá